Gina Weasley e o Slut Shaming

Quanto mais me debruço sobre o universo fantástico de Harry Potter, mais descubro no discurso da autora aspectos dignos de reflexão. Quem conhece a literatura de Rowling, descobre como ela tem opiniões progressivas e posicionamento definido contra opressões às minorias. Combates ao racismo, machismo e preconceito de classe são uma constante em sua obra e aparecem em seus textos de forma nítida. O que nunca havia reparado mais profundamente é na maneira como a autora trata a sexualidade feminina. Através da figura de Gina Weasley, faremos uma análise rápida dessa questão, discutindo a maneira como Rowling aborda o que ainda é tabu em pleno século XXI.

Não é novidade para ninguém que a literatura muitas vezes reflita os preconceitos da sociedade cegamente. A representação feminina na literatura sofreu – e ainda sofre – com as barreiras que as mulheres e meninas são obrigadas a transpor no mundo de carne e osso. Ao contrário do que muitos pensam, não estamos livres do machismo nos dias atuais. A falta de liberdade para exercer a sexualidade feminina é a prova viva disso. Nas escolas, universidades ou no local de trabalho, vigora o “slut shaming”, espécie de bullyng praticado contra meninas pelas roupas decotadas ou justas que usam ou pela quantidade de namorados/ficantes que tiveram.

A cantora estadunidense Taylor Swift é um exemplo de como impiedosa pode ser a postura da sociedade contra uma mulher livre. A troca de namorados não é tolerada pela mídia e público,que criaram uma imagem de mulher “fácil” e “rodada” para a cantora. Os homens do meio artístico ficam livres para incontáveis namoros e affairs, mas as mulheres que ousam agir assim sofrem com o ataque à sua liberdade.

A Gina Weasley que conhecemos no comecinho da saga não é a mesma menina forte com quem nos deparamos nos últimos livros. Tímida e inexpressiva, Gina corava à simples menção de Harry. No segundo livro, emocionalmente fragilizada com a influência do Diário de Tom Riddle, acaba por abrir a Câmara Secreta. A guinada da personagem vem com o decorrer da saga. Crescer com seis irmãos tornou Gina forte. Ela ficou destemida e incrivelmente boa em feitiços, principalmente com a azaração para rebater bicho-papão. Tem muito talento para o quadribol, o que mais para frente vai render-lhe, inclusive, o emprego de jogadora profissional. A paixonite por Harry Potter entra em segundo plano. A nova Gina adolescente ganhou belos contornos e um frenesi na escola: era linda. A garota de cabelos flamejantes causava furor entre os meninos. Antes de Harry, Gina se relaciona com Miguel Corner e Dino Thomas.

As mudanças registradas em Gina fazem parte da transformação calculada pela autora, a fim de dar a Harry um par à altura, uma vez que, para se manter fiel à estrutura original traçada por Joanne para a saga, Hermione, principal personagem feminino, estava destinada a Rony. Nesse contexto, Gina precisava se sobressair. E as escolhas de Rowling para isso, vejo mais claramente agora, foram muito progressivas. Ao invés de insistir numa Gina bobinha e desconcertada, Rowling nos apresentou a essa Gina forte e bem resolvida.

A fórmula da heroína romântica clássica passa longe daqui. Os namorados que Gina teve apontam o quão gente como a gente ela é. Ela não ficou para sempre esperando pelo Harry. A fila andou. E para a nova Gina bem resolvida, as piadinhas infames dos irmãos, de que ela estava namoradeira demais, não a afetavam.

Não é pouco importante que a escolhida de Harry tenha sido uma jovem livre e decidida. E também não é por acaso que a liberdade amorosa de Gina tenha chocado parte dos fãs. Ela é só uma garota que teve dois namorados antes de Harry, mas, para muitos, isso é demais para uma heroína da literatura. Na sociedade do “Slut Shaming”, a escolha mais fácil para namoradinha de Harry seria alguém frágil e casto demais para se relacionar com qualquer um que não fosse o nosso bruxinho favorito. Mas os avanços não estão nas decisões mais fáceis. E Rowling prefere os caminhos mais tortuosos, embora infinitamente mais progressivos.

*Texto originalmente publicado em minha coluna na Potterish em 23 de março de 2014 às 15:47

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